sábado, 3 de julho de 2010
Reflexão sobre saúde Comunitária
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Para lembrar...

Ai o bergalho do moço
Todo farsola, o pilão,
Pôs um nagalho ó pescoço
E lá foi p’ró S. João
Andou por lá na 'sterroa
Só à noite é qu’aparceu
Troixe um saco de rosquilhos
E nem siquer um me deu
Arreneguei-me co’ ele
Por ter sido assim lambão
Acertei-le c’um 'stadulho
Arrodilhou-se no chão
O mafarrico do moço
Assim, p’ra se desculpar
Dixe-me que 'stabo rijos
Muito ruins de rilhar
Ainda tinha um chesinho
E lá me deu a provar
Serviu-me d’apeguilho
Mesmo antes do jentar
Como à sede sou atreita
Sinti-me logo ‘sganada
Peguei num copo e bubi
Uma grande estarraçada
Fiquei logo agoniada
É qu’im bez d’auga, era binho
Comecei a estrebangar
Perdi os socos e o tino
Fiquei meia desadreita
Só queria enguedelhar
C’o meu Zé, que ó ber isto,
Começou-m’ arrumedar
Pinchei-lhe treda, p'ra cima
Fiz dele meu inxergão
Ele ficou adoudado
‘spetou comigo no chão
Juntaro-se as tanateiras
Q'ando oubiro o rebuliço
Nisto, num bi qu’o meu Zé
Tinha lubado sumiço
Fui d’reita para a cozinha
Q’eu sempre fui zabaneira
Incontrei-o ‘sterlicado
No buraco da pilheira
Atupi-o lá co’a cinza
Sentei-me no preguiceiro
E de lá o bi sair
Agarrado ó trefogueiro
Binha tão arrumelado
Que m’escagalhei co’ riso
Ele meio derreado
Inda subiu ó caniço
‘scanchado num canhoto
Os dentes esterrincou
Eu dei-le uma rodilha
E co’ela s' alimpou
Chegou o tredo do moço
Binha todo tesicado
Qu’as bedeiras le dixero
Qu’o pai se tinha ‘smoucado
Pegou-le às carrachoilas
Ajudou-o a ir p’ró chão
Já num s’inchergaba nada
Acendi o lampião
Pegaro ópois na caçoila,
A do arroz da bessada,
Comero-nos dois à farta
Num me deixaro já nada
Fui à talha, às azeitonas
À suã, à salgadeira
C’uma miola de pão
Eu lá matei a lazeira
Fui-me deitar, de catrambias
Inda do binho bubido
A cama 'staba desfeita
Alguém le tinha bulido
Num bi nenhum e, tropêça
Fui ber ó quarto fundeiro
Lá stabo eles c’os chabelhos
Metidos no trabesseiro
A noite foi pequerricha
P’r áquilo qu’eu precisaba
Dormi mal porque sonhei
Qu’um jerico me sobaba
Ergui-me de madrugada
E os porcos fui apajar
Um fugiu-me prá leira
Tibe que o ir aqueibar
S’ele fosse p’ró ribeiro
Eu num podia azangar
‘scorregaba com’ó códo
Inda m’ia ‘scabrear
Mas lá o troixe p’lo quelho
E na loja o enfiei
Descalcei as minhas chancas
E o babeiro tirei
Fui a correr para casa
Zorata inda, do serão,
E p’rós três, na sertã grande,
Fiz obos c’um salpicão
Já tinha farto o bandulho
Q’ ando os dois aparcero
Pusero-se a britar nozes
E foi só o que comero
Despois foro p’ró canastro
P’ra debulhar uns feijões
E eu lá fiquei sozinha
A pensar c’os meus betões
Olhei ó redor da casa
Inda zoeira, da piela
Barri o cisco às caleiras
Ópois tratei da barrela
Agarrei-me ó ingaço
Fui p’ró campo, p’ró cabouco
‘inda chamei o meu Zé
Mas ele fez qu’era mouco
‘staba agarrado ó mongal
Só a fazer que malhaba
O moço ‘staba co’ ele
E num queria mais nada
Passei na minha comadre
P’rá rogar, para a cegada
Dixe-me que num podia
Qu’ andaba meia enjorcada
Ópois pôs-se a preguntar
Em que pé tinha ficado
Aquela ‘stória do binho
E se o Zé tinha adoudado
Homesêssa! O qu' é isto?
Com bruxedos eu num posso
São cousas cá entre mim
E o meu Zé e o meu moço
Fiquei muito arrenegada
Saí de lá a cismar
E co’as tripas embrulhadas
Sem me poder ajoanar
Fui jonguer a nossa junta
E pu-la ó carro ó despois
Sentei-me numa das chedas
E fui chamar p’los meus dois
A modos, falei co' eles
Amostrei-me arrependida
Olharo um para o oitro
Inda c’oa tromba trocida
Atão o meu Zé pegou
Acertou-me c’um chamiço
E dixe: Pronto, mulher
Num bamos mais falar disso.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
O "DIÇONAIRO"
Pela minha parte, só espero que o fantasma do Dr. Rodrigo Fontinha não se zangue por lhe utilizar a capa do seu velhinho dicionário que me acompanha há mais de 40 anos, para que o "post" tenha alguma cor (ainda que seja a do luto).
À
Nova forma de escrever o verbo HAVER, sem o H. Poupa-se tinta e tempo.
Usa-se muito nos SMS, essa fórmula mágica de comunicar hoje em dia através dos telemóveis. Exemplo: "À muito tempo que não leio a Gramática. Por isso esqueci como se escrevem alguns verbos. Peço desculpa". Alguns, infelizmente, nem desculpa pedem...
Alevantar
O acto de levantar mas com mais convicção, com o ar de 'a mim ninguém me come por parvo!... alevantei-me e fui-me embora!'.
Amandar
O acto de atirar com força: 'O guarda-redes amandou a bola para bem longe'
Aspergic
Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina.
Assentar
O acto de sentar, só que com muita força, como fosse um tijolo a cair no cimento.
Capom
Porta de motor de carros que quando se fecha faz POM!
Controlar a rotunda
Acto de andar às voltas na dita pra controlar e ver se está tudo bem! Antigamente dizia-se Contornar, mas passou de moda.
Destrocar
Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.
Disvorciada
Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.
Então, é assim...
Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Termo que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocado no início de qualquer frase. Muito utilizado por jornalistas e intelectuais.
Entropeçar
Tropeçar duas vezes seguidas.
Êros
Moeda alternativa ao Euro, adoptada por alguns portugueses. Os Êros estão cada vez más caros.
Falastes, dissestes...
Articulação na 4ª pessoa do singular. Ex.: eu falei, tu falaste, ele falou, TU FALASTES..
Fracturação
O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. Casa que não fractura... não predura.
Há-des
Verbo 'haver' na 2ª pessoa do singular: 'Eu hei-de cá vir um dia; tu há-des cá vir um dia...'
Inclusiver
Forma de expressar que percebemos de um assunto. "E digo mais: eu inclusiver acho esta palavra muita gira". Também existe a variante 'Inclusivel'.
Mister
Está muito na moda. É o antigo TREINADOR, que passou de moda. Exemplo: "O Mister ralhou comigo e disse que eu tinha de correr mais depressa e fazer mais dribles. O Mister é que sabe!"
Mormurando
Bilhete enviado por escrito e obviamente 'baixinho'....Irmão de peito do MEMORANDO ou do outro MEMORANDUM do tempo dos Romanos
Mô
A forma mais prática de articular a palavra MEU e dar um ar afro à língua portuguesa, como 'bué' ou 'maning'. Ex.: Atão mô, tudo bem?
Nha
Assim como Mô, é a forma mais prática de articular a palavra MINHA. Para quê perder tempo, não é? Fica sempre bem dizer 'Nha Mãe' e é uma poupança extraordinária.
Númaro
Também com a vertente 'númbaro'. Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para se deixar de utilizar a palavra NÚMERO, a qual está em claro desuso. Por mim, acho um bom númaro!
Parteleira
Local ideal para guardar à parte os livros de Protuguês do tempo da escola.
Perssunal
O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol. Ex.: 'Sou perssunal de futebol'. Dica: deve ser articulada de forma rápida.
Pitaxio
Aperitivo da classe do 'mindoím'.
Pleumonia
Doença que afecta o 'plumão'
Prontus
Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um prontus'! Fica sempre bem.
Quáise
Também é uma palavra muito apreciada pelos nossos pseudo-intelectuais... Ainda não percebi muito bem o quer dizer, mas o problema deve ser meu.
Stander
Local de venda. A forma mais famosa é, sem dúvida, o 'stander' de automóveis. O 'stander' é um dos grandes clássicos do 'português da cromagem'...
Tipo
Juntamente com o 'É assim', faz parte das grandes evoluções da língua portuguesa. Também sem querer dizer nada, e não servindo para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado, nem certo. É assim... tipo, tás a ver?
Trêuze
Palavras para quê? Todos nós conhecemos o númaro trêuze.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Felizes

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e
estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés
espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da
cintura Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E
o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque
não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe, E nunca tivera pai para amar
com respeito, Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado
na cruz que há no céu E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas Que vão em ranchos pela
estradas com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E
olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar no chão E
a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido" - "Ele diz, por exemplo, que os
seres cantam a sua glória, Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos
meus braços e eu levo-o ao colo para casa.
VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera
FERNANDO PESSOA
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Mais uma partilha
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Há que tempos não ponho nada aqui...
Uma vantagem, para além do sol e do calor, é que o tempo, nos lugares por onde ando, estica muito... Dá para vermos coisas que há muito esperam para serem vistas e... para as partilharmos com quem ainda não se tenha esquecido de aparecer por aqui.

