sábado, 3 de julho de 2010

Reflexão sobre saúde Comunitária


Parte de um trabalho realizado pelos meus estudantes do 1º ano durante o Ensino Clínico. Como acho que vale a pena ser divulgado aqui estou a "blogar" outra vez...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Para lembrar...



Por causa disto fui buscar o que abaixo se segue, escrito em 1995, por uma pessoa muito querida. A minha mana M.

Ai o bergalho do moço

Todo farsola, o pilão,

Pôs um nagalho ó pescoço

E lá foi p’ró S. João


Andou por lá na 'sterroa

Só à noite é qu’aparceu

Troixe um saco de rosquilhos

E nem siquer um me deu


Arreneguei-me co’ ele

Por ter sido assim lambão

Acertei-le c’um 'stadulho

Arrodilhou-se no chão


O mafarrico do moço

Assim, p’ra se desculpar

Dixe-me que 'stabo rijos

Muito ruins de rilhar


Ainda tinha um chesinho

E lá me deu a provar

Serviu-me d’apeguilho

Mesmo antes do jentar


Como à sede sou atreita

Sinti-me logo ‘sganada

Peguei num copo e bubi

Uma grande estarraçada


Fiquei logo agoniada

É qu’im bez d’auga, era binho

Comecei a estrebangar

Perdi os socos e o tino


Fiquei meia desadreita

Só queria enguedelhar

C’o meu Zé, que ó ber isto,

Começou-m’ arrumedar


Pinchei-lhe treda, p'ra cima

Fiz dele meu inxergão

Ele ficou adoudado

‘spetou comigo no chão


Juntaro-se as tanateiras

Q'ando oubiro o rebuliço

Nisto, num bi qu’o meu Zé

Tinha lubado sumiço


Fui d’reita para a cozinha

Q’eu sempre fui zabaneira

Incontrei-o ‘sterlicado

No buraco da pilheira


Atupi-o lá co’a cinza

Sentei-me no preguiceiro

E de lá o bi sair

Agarrado ó trefogueiro


Binha tão arrumelado

Que m’escagalhei co’ riso

Ele meio derreado

Inda subiu ó caniço


‘scanchado num canhoto

Os dentes esterrincou

Eu dei-le uma rodilha

E co’ela s' alimpou


Chegou o tredo do moço

Binha todo tesicado

Qu’as bedeiras le dixero

Qu’o pai se tinha ‘smoucado


Pegou-le às carrachoilas

Ajudou-o a ir p’ró chão

Já num s’inchergaba nada

Acendi o lampião


Pegaro ópois na caçoila,

A do arroz da bessada,

Comero-nos dois à farta

Num me deixaro já nada


Fui à talha, às azeitonas

À suã, à salgadeira

C’uma miola de pão

Eu lá matei a lazeira


Fui-me deitar, de catrambias

Inda do binho bubido

A cama 'staba desfeita

Alguém le tinha bulido


Num bi nenhum e, tropêça

Fui ber ó quarto fundeiro

Lá stabo eles c’os chabelhos

Metidos no trabesseiro


A noite foi pequerricha

P’r áquilo qu’eu precisaba

Dormi mal porque sonhei

Qu’um jerico me sobaba


Ergui-me de madrugada

E os porcos fui apajar

Um fugiu-me prá leira

Tibe que o ir aqueibar


S’ele fosse p’ró ribeiro

Eu num podia azangar

‘scorregaba com’ó códo

Inda m’ia ‘scabrear


Mas lá o troixe p’lo quelho

E na loja o enfiei

Descalcei as minhas chancas

E o babeiro tirei


Fui a correr para casa

Zorata inda, do serão,

E p’rós três, na sertã grande,

Fiz obos c’um salpicão


Já tinha farto o bandulho

Q’ ando os dois aparcero

Pusero-se a britar nozes

E foi só o que comero


Despois foro p’ró canastro

P’ra debulhar uns feijões

E eu lá fiquei sozinha

A pensar c’os meus betões


Olhei ó redor da casa

Inda zoeira, da piela

Barri o cisco às caleiras

Ópois tratei da barrela


Agarrei-me ó ingaço

Fui p’ró campo, p’ró cabouco

‘inda chamei o meu Zé

Mas ele fez qu’era mouco


‘staba agarrado ó mongal

Só a fazer que malhaba

O moço ‘staba co’ ele

E num queria mais nada


Passei na minha comadre

P’rá rogar, para a cegada

Dixe-me que num podia

Qu’ andaba meia enjorcada


Ópois pôs-se a preguntar

Em que pé tinha ficado

Aquela ‘stória do binho

E se o Zé tinha adoudado


Homesêssa! O qu' é isto?

Com bruxedos eu num posso

São cousas cá entre mim

E o meu Zé e o meu moço


Fiquei muito arrenegada

Saí de lá a cismar

E co’as tripas embrulhadas

Sem me poder ajoanar


Fui jonguer a nossa junta

E pu-la ó carro ó despois

Sentei-me numa das chedas

E fui chamar p’los meus dois


A modos, falei co' eles

Amostrei-me arrependida

Olharo um para o oitro

Inda c’oa tromba trocida


Atão o meu Zé pegou

Acertou-me c’um chamiço

E dixe: Pronto, mulher

Num bamos mais falar disso.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O "DIÇONAIRO"

Tá mesmo a fazer muita falta... Espero que "m'agardeçam".
Pela minha parte, só espero que o fantasma do Dr. Rodrigo Fontinha não se zangue por lhe utilizar a capa do seu velhinho dicionário que me acompanha há mais de 40 anos, para que o "post" tenha alguma cor (ainda que seja a do luto).




À
Nova forma de escrever o verbo HAVER, sem o H. Poupa-se tinta e tempo.
Usa-se muito nos SMS, essa fórmula mágica de comunicar hoje em dia através dos telemóveis. Exemplo: "À muito tempo que não leio a Gramática. Por isso esqueci como se escrevem alguns verbos. Peço desculpa". Alguns, infelizmente, nem desculpa pedem...

Alevantar
O acto de levantar mas com mais convicção, com o ar de 'a mim ninguém me come por parvo!... alevantei-me e fui-me embora!'.

Amandar
O acto de atirar com força: 'O guarda-redes amandou a bola para bem longe'

Aspergic
Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina.

Assentar
O acto de sentar, só que com muita força, como fosse um tijolo a cair no cimento.

Capom
Porta de motor de carros que quando se fecha faz POM!

Controlar a rotunda
Acto de andar às voltas na dita pra controlar e ver se está tudo bem! Antigamente dizia-se Contornar, mas passou de moda.

Destrocar
Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.

Disvorciada
Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.

Então, é assim...
Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Termo que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocado no início de qualquer frase. Muito utilizado por jornalistas e intelectuais.

Entropeçar
Tropeçar duas vezes seguidas.

Êros
Moeda alternativa ao Euro, adoptada por alguns portugueses. Os Êros estão cada vez más caros.

Falastes, dissestes...
Articulação na 4ª pessoa do singular. Ex.: eu falei, tu falaste, ele falou, TU FALASTES..

Fracturação
O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. Casa que não fractura... não predura.

Há-des
Verbo 'haver' na 2ª pessoa do singular: 'Eu hei-de cá vir um dia; tu há-des cá vir um dia...'

Inclusiver
Forma de expressar que percebemos de um assunto. "E digo mais: eu inclusiver acho esta palavra muita gira". Também existe a variante 'Inclusivel'.

Mister
Está muito na moda. É o antigo TREINADOR, que passou de moda. Exemplo: "O Mister ralhou comigo e disse que eu tinha de correr mais depressa e fazer mais dribles. O Mister é que sabe!"


Mormurando
Bilhete enviado por escrito e obviamente 'baixinho'....Irmão de peito do MEMORANDO ou do outro MEMORANDUM do tempo dos Romanos

Mô
A forma mais prática de articular a palavra MEU e dar um ar afro à língua portuguesa, como 'bué' ou 'maning'. Ex.: Atão mô, tudo bem?

Nha
Assim como Mô, é a forma mais prática de articular a palavra MINHA. Para quê perder tempo, não é? Fica sempre bem dizer 'Nha Mãe' e é uma poupança extraordinária.

Númaro
Também com a vertente 'númbaro'. Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para se deixar de utilizar a palavra NÚMERO, a qual está em claro desuso. Por mim, acho um bom númaro!

Parteleira
Local ideal para guardar à parte os livros de Protuguês do tempo da escola.

Perssunal
O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol. Ex.: 'Sou perssunal de futebol'. Dica: deve ser articulada de forma rápida.

Pitaxio
Aperitivo da classe do 'mindoím'.


Pleumonia
Doença que afecta o 'plumão'

Prontus
Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um prontus'! Fica sempre bem.

Quáise
Também é uma palavra muito apreciada pelos nossos pseudo-intelectuais... Ainda não percebi muito bem o quer dizer, mas o problema deve ser meu.

Stander
Local de venda. A forma mais famosa é, sem dúvida, o 'stander' de automóveis. O 'stander' é um dos grandes clássicos do 'português da cromagem'...

Tipo
Juntamente com o 'É assim', faz parte das grandes evoluções da língua portuguesa. Também sem querer dizer nada, e não servindo para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado, nem certo. É assim... tipo, tás a ver?

Trêuze
Palavras para quê? Todos nós conhecemos o númaro trêuze.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Felizes

Com licença do meu amigo MS que me enviou este poema e como homenagem a todos os meninos... que sabem conservar-se meninos...



Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e
estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés
espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da
cintura Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E
o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque
não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe, E nunca tivera pai para amar
com respeito, Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado
na cruz que há no céu E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas Que vão em ranchos pela
estradas com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E
olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar no chão E
a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido" - "Ele diz, por exemplo, que os
seres cantam a sua glória, Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos
meus braços e eu levo-o ao colo para casa.


VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera
FERNANDO PESSOA

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Mais uma partilha

Com um agradecimento à minha amiga AM que me enviou a ligação para mais esta inspiradora conferência. E votos de umas boas festas e de um novo ano de paz.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Há que tempos não ponho nada aqui...




Uma vantagem, para além do sol e do calor, é que o tempo, nos lugares por onde ando, estica muito... Dá para vermos coisas que há muito esperam para serem vistas e... para as partilharmos com quem ainda não se tenha esquecido de aparecer por aqui.