sábado, 29 de novembro de 2008

Portugal triste

























NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder
Como o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

Valete, Fratres

Fernando Pessoa (Antologia )



Mas, parece, a hora ainda não chegou
Não sei se é do frio, se é de mim. A verdade é que me apeteceu "roubar" este mapa aqui e fazer-lhe "maldades"... Espero que a autora me perdoe. Depois, abri ao acaso um livro de poemas e que me sai? Aqui fica à consideração de quem passar...

Fado Triste - Mísia - Fonte: Youtube

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Fontanna Bellagio - Las Vegas

video
Poucas coisas me descontraem melhor do que olhar água em movimento. De preferência as ondas do mar. Mas também gosto de uma fonte e este vídeo que me chegou da parte de um amigo é espectacular.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A casa dos Outros


Recebi o mail de uma antiga aluna que terminou o curso de enfermagem há dois anos. Segundo ela, um simples desabafo do dia a dia de uma enfermeira nos " cuidados continuados" em Portugal.
Os tais que se inventaram para que os Hospitais baixem a média de dias de internamento, um indicador de "eficiência" que os novos gestores querem, a qualquer preço. Relatos como este, conheço às dúzias. No nosso país, quase toda aquela "estrutura" (ou a falta dela) assenta na dedicação de enfermeiras e enfermeiros que se desgastam em dias assim, até chegarem ao ponto de "burnout"... em que tudo deixa de interessar-lhes e passam a ser autómatos vivos, de emoções mortas... Além dos enfermeiros, a tal "eficiência" também assenta no sacrifício de familiares que, sem meios e sem apoios dignos, vivem situações que por vezes duram anos e anos, de completa dedicação/alienação de si mesmos. É isto que os enfermeiros também carregam nas suas preocupações do dia a dia enquanto não "queimam". Não pretendem ser heroínas e heróis, gostam do que fazem... Mas precisam de o fazer com condições dignas para os profissionais, para aqueles de quem cuidam, para o sistema que integram, para o país em que vivemos todos. O texto é longo mas peço-vos que tenham paciência para lê-lo. Trata-se de denunciar uma situação de que se fala muito menos do que interessa a todos nós. Aqui vai portanto:
A CASA DOS OUTROS
A D. Maria tem 47 anos... e um cancro de um ovário. O marido, já reformado,
quis satisfazer-lhe o desejo de não morrer num hospital.
Têm uma filha, a acabar o curso na universidade: boa aluna, em altura de
exames... precisa de estudar e a sua mãe está a terminar os seus dias de vida, no quarto ao lado...
A D. Maria está em cuidados paliativos... e sabe disso!
Já não quer comer, bebe apenas alguns goles de água. Tem um soro para que lhe possamos dar medicamentos. Uma perfusão permanente de morfina, cuja eficácia já há muito, deixou de ser esperada. A barriga... como descrever? Tem uma colostomia que mal funciona... está inchada, como um balão que vai rebentar.. e, de facto, começa a rebentar: abrem-se fístulas espontaneamente e as fezes saem por todo o lado. O cheiro? Não consigo descrever! O corpo? Pele e osso, para ser mais exacta! Há metástases no fígado, no pulmão... a respiração é ofegante... já lá vão 5 semanas...
Diariamente, desloco-me a casa da D. Maria, duas ou três vezes: para dar
medicação, para cuidar daquela barriga... para falar com ela, para dar o apoio possível ao marido e à filha, que tentam fazer o que sabem e o que podem . O sofrimento? É grande... de todos! Mas eu sou enfermeira... não é suposto que me seja difícil ver o sofrimento dos outros! Tudo se torna mais difícil quando estou a sós com a D. Maria, que me agarra as mãos e me pede insistentemente... que termine com a vida dela! Os apelos são cada vez mais frequentes, mais desesperados: 'Por favor! Se tem compaixão de mim, injecte-me qualquer coisa para terminar de vez com esta agonia! Pela sua felicidade, por favor, acabe com a minha vida'... E eu tenho compaixão... mas nada posso fazer! A dor não se consegue controlar por estes meios, não disponho de tempo para tentar outros, é impossível cuidar dela sem lhe provocar ainda mais dores...
O que faz uma enfermeira?
Vai-se embora dali de cada vez a sentir-se mais inútil... A sentir-se incapaz... A
ouvir repetidamente aquele apelo... e a desejar, embora lhe custe muito, que a eutanásia fosse possível! Mas, se fosse possível... e a praticasse, como iria para casa?
Mas para quê falar disto?... Os enfermeiros não
podem perder-se em sentimentos!
Continuo o meu plano de trabalho domiciliário: Agora o meu próximo doente "vive" numa
barraca . Chove dentro, há ratos, pulgas, lixo... o cheiro faz - nos ter vontade de fazer meia volta de imediato... O Sr. José tem 87 anos e vive sozinho. A auxiliar domiciliária passa por lá uma vez por semana mas pouco pode fazer para melhorar o conforto ou o aspecto da "habitação" do Sr. José que tem uma úlcera da perna direita, bastante infectada. Tenho que fazer-lhe o penso. Não há água... nem sequer as mãos posso lavar. Nem antes, nem depois do penso. Passo-as por álcool antes e, de novo, à saída e lavo-as na próxima casa em que encontre água corrente.
Chove a cântaros. Volto para o carro, (é o meu carro e recebo uma ninharia para usá-lo porque não há carros de serviço suficientes, nem para metade do serviço) e avanço pela lama com medo de ficar enterrada, de derrapar e ter um acidente (não há seguro que cubra este acidente "em serviço"). Chego ao próximo domicílio em que vou prestar cuidados, não há lugar para estacionar perto, deixo o carro a mais de 300 metros, carrego as malas do material, o guarda chuva, desloco-me devagar, o cansaço vai tomando conta de mim e ainda não vou a meio do dia... Mas, para quê falar disto?... A minha profissão não é considerada de risco e nem penosa! Ainda há quem pense que o trabalho que faço não necessita sequer, de qualificação profissional... Chego à porta da D. Joaquina, 92 anos, vive numas águas furtadas, sem elevador. Subo 5 lances de escadas de madeira, apodrecidas, escuras, bafientas. O prédio parece cenário de um filme de terror, não se ouve ninguém enquanto subo pisando devagar, com medo que alguma tábua dos degraus se parta e eu fique, sem socorro, pendurada nem sei como. Nem vi se ali dentro, tenho rede no telemóvel... nem sei se conseguiria chegar-lhe... Carrego com as malas do material... Chego por fim, à pequena mansarda do velho prédio! A D. Joaquina vive com uma irmã pouco mais nova, D. Maria, naquele espaço exíguo. Teve um AVC e o hospital deu-lhe alta passadas 72 horas. Ficou em casa, sem cuidados, até que a irmã se queixou a uma vizinha, que fez o favor de ir ao Centro de Saúde comunicar a situação das duas senhoras. Do Hospital, mais uma vez, se esqueceram de notificar da alta. Quando lá fui pela primeira vez, constatei as enormes úlceras de pressão que tenho vindo a tratar ali. O tecto é baixo, inclinado, a cama está encostada à parede. Para lhe cuidar as feridas tenho que me pôr de joelhos no chão e ficar inclinada, sobre a cama. Não tenho apoio para os materiais que utilizo e a D. Maria pouco me pode ajudar, porque se move com dificuldade e quase não vê. Quando me endireito, as minhas costas doem... tenho as pernas dormentes... Pelo menos há água. Tiro o avental que enrolo para levar comigo, assim como o lixo tirado dos pensos, porque só posso depositar aquele material contaminado, com relativa segurança, no Centro de Saúde. Lavo as mãos, puxo do sorriso de que sou mais capaz, para me despedir até daqui a dois dias, pego nas malas, desço as escadas com os mesmos temores e cuidados com que as subi... continua a chover lá fora... mas não posso perder tempo. Faço, de novo à chuva, o caminho de regresso ao carro equilibrando a custo, carregos e guarda chuva! Pensando, apesar de tudo, como é bom andar... Perante as vidas que as nossas visitas nos fazem pressentir e apesar de tudo, sentir, não há queixas que os enfermeiros considerem justas!
Próximo desafio: a Helena! Toxicodependente... tem SIDA, continua a
consumir... com sorte, ainda encontro o traficante lá em casa... As enfermeiras não podem ter medo! Uff! Não encontrei o traficante e a Helena hoje até estava mais acordada e com melhor humor do que é habitual. Depois desta visita, paro num pequeno café, onde consigo estacionar perto da porta. Continua a chover e já vou atrasada no serviço. À pressa e maquinalmente vou sorvendo o galão e mastigando o pão com queijo que me servirão de almoço... Não posso pensar enquanto como porque, se começo a recordar-me do que vivi nesta manhã, ou em outras parecidas, não há nada que eu consiga engolir.
Continuo: o Sr. Manuel é diabético, divorciado, tem 50 anos, foi amputado
de uma perna, vive sozinho num 3º andar também sem elevador. Há 2 anos que não sai de casa: como fazer? Convive com poucas pessoas das quais a maioria, são as enfermeiras e eu, uma delas! Precisa de conversar... e eu sei reconhecer essa necessidade humana básica de comunicação, para cuja resposta fui muito bem preparada e continuo a ser, em todas as publicações e actualizações, que me obrigo a conhecer... como posso então dizer-lhe que esse cuidado básico, não faz parte da estatística que ainda tenho que preencher quando chegar ao Centro de Saúde, depois das mais 6 pessoas que ainda me falta cuidar e que não faz parte das contabilidades dos contadores do meu tempo, o tempo necessário para ficar ali a ouvi-lo? Despeço-me, o mais delicadamente que posso e saio, tentando ignorar o mal estar que me provoca o facto de apenas me contarem as injecções, os pensos e muito pouco mais, quando me exigem que me dê conta de tudo o resto e, depois, o considere... supérfluo! Sigo para as casas dos outros, onde vou encontrar outras dores, outras chagas, outros desesperos, outras solidões e confrontar-me, de todas as vezes, com a minha incapacidade para fazer mais, para fazer melhor, apesar de me sentir a dar do que sei e do que sou, até ao limite das minhas forças...
Mas com quem vou eu falar da solidão do outro, da minha impotência, das dores nas costas, dos meus medos, das várias inseguranças, daquele ventre desfeito, dos familiares exaustos, da tristeza, da compaixão... das súplicas de eutanásia, das dúvidas sobre o valor e os valores da vida??? E quem vai entender, depois, de incómodos de chuva, de frio, de sol, de calor, de maus cheiros, de dores nas minhas pernas... do material tirado dos pensos a conspurcar o meu carro... é nele que, depois de sair do trabalho, tenho que ir buscar a minha filha à escola!!! Já estou atrasada!!!
Não, a penosidade do que faço e os riscos que me passam pela cabeça, devem ser ilusão minha... Soube que nos anos 80, havia um movimento no sentido de se considerar Enfermagem como profissão de risco mas isso, foi completamente abandonado nos tempos que correm, em que o maior risco passou a ser o de perder o emprego... O emprego... porque o trabalho é cada vez mais... Ah! E os convites ao empreendedorismo dos enfermeiros... Podemos ser todos empresários e tirar desta miséria que vemos e sentimos, o proveito mais proveitoso que se pode imaginar... depois de as grandes empresas privadas que constroem hospitais de luxo, onde os meus doentes nunca podem entrar, garantirem que as suas actividades geram lucros para os seus accionistas...
Não, as enfermeiras não se revoltam. Não têm tempo!
Sobretudo, as enfermeiras não choram! Não têm lágrimas!

Mas sabem?... as lágrimas que mais doem são aquelas que não correm!'